LEITURA MUSICADA NO TOM DO SABER
Dia 26/11 -Leitura Musicada tem especial de aniversário no dia 26 de novembro, na livraria Tom do Saber (Rio Vermelho) com uma homenagem à atriz Nilda Spencer. O projeto que tem como objetivo aproximar o público da literatura através da dramatização do texto e das inserções musicais, contará com a participação dos atores: Yumara Rodrigues, Harildo Déda e do músico Tuzé de Abreu. A cantora Manuela Rodrigues acompanhada de Tadeu Mascarenhas (teclado), Son Melo (baixo) e Lalinho (bateria) fará uma apresentação especial. Degraça, às 20 horas.
www.piramidedoriovermelho.com.br
MARTN’ÁLIA NA CONCHA DO TCA
Dia 28/11 - A cantora Martin’ália apresenta em Salvador show do seu novo CD “Madrugada”. Mais relaxado e menos sério (nas palavras dela) que o anterior, o disco surgiu "da esperança de fazer algo com Arthur Maia", com quem Mart'nália se identifica no gosto pelos "Stevie Wonders e Marvin Gayes da vida". A leva de "saudade", comum aos CDs de Mart'nália, inclui ainda "Alegre Menina", de Dorival Caymmi e Jorge Amado, que Djavan gravou para a novela "Gabriela Cravo e Canela" (1983), e "Tom Maior", de Martinho da Vila. O disco tem uma garantia de reconhecimento imediato. A versão com sotaque carioca de Mart'nália para "Don't Worry, Be Happy", de Bobby McFerrin, é tema da nova novela das sete da Globo, "Três Irmãs".
Horário: 18h30 Ingressos à venda (inteira): R$ 30,00
www.tca.ba.gov.br
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
CRISE, TV E CONSUMO - Malu Fonte
Se há algo de que o telespectador médio deve duvidar é dos conselhos quase diários dados nos telejornais pelo presidente Lula: a crise existe, mas o cidadão tem que consumir, senão as coisas ficarão muito piores. Segundo o presidente, não é porque há uma crise no mundo que o povo vai parar de comprar. Tudo bem, o argumento é coerente, afinal se ninguém compra nada, o mercado implode e a crise se exacerba. Entretanto, diante das circunstâncias atuais, como pode o gerente do País esperar que suas recomendações para comprar um carro ou um bem de consumo mais sofisticado sejam seguidas pela população assalariada?A cobertura da crise pelo telejornalismo é emblemática em sua essência, afinal, nada mais associado ao consumo que a TV, veículo moldado, por excelência, para convidar (e estimular incessantemente) à aquisição de coisas, sobretudo aquelas de que não se precisa, as supérfluas, a cereja do bolo do capitalismo.Numa leitura mais subliminar, é de um simbolismo sem par uma análise, hoje, confrontando e contrapondo os discursos dos telejornais, no que diz respeito à avalanche de informações apocalípticas sobre a crise, em todas as suas dimensões, e os discursos do intervalo comercial televisivo, com seus mantras eternamente repetitivos e sedutores, batendo sempre na mesma tecla: compre, compre, compre.
BJÖRK - Todos os dias, basta meia hora em frente à TV, diante de qualquer telejornal, para tomar conhecimento do tamanho do caos no mundo e aqui. Que a primeira economia do mundo estava ameaçando capengar feio desde que os americanos deixaram de pagar as hipotecas de suas casas bacanas, todo mundo já sabia há algum tempo. Mas que isso iria dar no que deu, sabe-se agora e um pouco mais a cada dia. Primeiro foi a Islândia, país cuja única referência que alguns poucos brasileiros tinham era a nacionalidade da cantora esquisitinha e cult Björk, que caiu de podre de falência.Logo após a queda da Islândia na vala das economias agonizantes, o brasileiro foi informado através da voz solene e do senho franzido sob a mecha grisalha de William Bonner que a média de demissões na Europa, por dia, é de 10 mil pessoas. Esta semana entrou nas chamadas de todos os telejornais do mundo mais uma bomba: a segunda economia do mundo, a japonesa, declarou-se oficialmente em recessão. Quer mais? Por aqui, as montadoras, em série, não apenas anunciam férias coletivas para logo como as antecipam uma, duas, três vezes e a cada vez que o fazem aumentam o universo de trabalhadores e de funções que serão contemplados com esse descanso involuntário fora de hora e às vésperas do Natal.
QUANDO FEVEREIRO CHEGAR - Portanto, perguntar não custa. Quais serão os cidadãos e consumidores insanos que, diante dos aconselhamentos do Presidente da República em suas falas na TV, irão correr para a loja, imobiliária ou concessionária mais próximas para saciar seus sonhos de consumo neste Natal que já bate à porta? A questão não é de precaução, mas de medo mesmo, ou, no mínimo, de bom senso. Qual o contingente de assalariados neste País que, diante de tal cenário econômico nacional e internacional, tem qualquer garantia de que terá emprego - e, portanto, salário, quando janeiro ou fevereiro chegarem? E aqueles que têm dinheiro para comprar veículo, casa ou eletrodomésticos de alta tecnologia à vista neste País conta-se praticamente nos dedos. Só inconseqüência ou otimismo abilolado para levar um brasileiro, hoje, a fazer dívidas de longo prazo.Outro aspecto que merece quase uma gargalhada são os empresários entrevistados nesses programas sisudos de economia. Arvoram-se a esquecer de seus costados financeiros esfacelando-se cada dia mais nas bolsas de valores e descem o malho no governo federal, criticando-o por não estar fazendo o dever de casa como eles, empresários, que estão cortando custos, blá, blá, enquanto o setor público não estaria cortando nada.
E A ARGENTINA? - Reclamam do quê? Coloque-se no lugar do cidadão comum: o governo usa milhões dos cofres públicos para socorrer o setor privado, visando evitar que empresas até ontem sólidas virem pó. Do dinheiro público que migra todos os dias para socorrer o tal mercado, ninguém se queixa. Empresários falam como se a maior gravidade orçamentária brasileira fosse os não-cortes no setor público. Assim como se dizia lá no passado que o problema brasileiro era a saúva, hoje é a corrupção, alastrada e incontrolável. E o que é a corrupção senão a transferência criminosa e volumosa de dinheiro público para bolsos privados? Continuando a questionar esses paradoxos discursivos dos atores do mercado, alguém poderia explicar por que a imprensa brasileira, televisiva e escrita, está tão quietinha e omissa diante da surrupiada do dinheiro da previdência privada que o governo argentino de Cristina Kirchner promoveu? Ah se fosse Hugo Chávez (Peru), Evo Morales (Bolívia) ou Rafael Correa (Equador). Miriam Leitão e Arnaldo Jabor estariam roucos de tanto bradar.
Malu Fontes Jornalista, doutora em comunicação e cultura e professora da Facom-Ufba.Publicado no jornal A Tarde, caderno Revista da TV, em 23/11/08.
http://www.atarde.com.br/jornalatarde/revistadatv/noticia.jsf;jsessionid=4775A9B55B551BA18BBE91C6332E0B1F.jbossdube1?id=1013525
BJÖRK - Todos os dias, basta meia hora em frente à TV, diante de qualquer telejornal, para tomar conhecimento do tamanho do caos no mundo e aqui. Que a primeira economia do mundo estava ameaçando capengar feio desde que os americanos deixaram de pagar as hipotecas de suas casas bacanas, todo mundo já sabia há algum tempo. Mas que isso iria dar no que deu, sabe-se agora e um pouco mais a cada dia. Primeiro foi a Islândia, país cuja única referência que alguns poucos brasileiros tinham era a nacionalidade da cantora esquisitinha e cult Björk, que caiu de podre de falência.Logo após a queda da Islândia na vala das economias agonizantes, o brasileiro foi informado através da voz solene e do senho franzido sob a mecha grisalha de William Bonner que a média de demissões na Europa, por dia, é de 10 mil pessoas. Esta semana entrou nas chamadas de todos os telejornais do mundo mais uma bomba: a segunda economia do mundo, a japonesa, declarou-se oficialmente em recessão. Quer mais? Por aqui, as montadoras, em série, não apenas anunciam férias coletivas para logo como as antecipam uma, duas, três vezes e a cada vez que o fazem aumentam o universo de trabalhadores e de funções que serão contemplados com esse descanso involuntário fora de hora e às vésperas do Natal.
QUANDO FEVEREIRO CHEGAR - Portanto, perguntar não custa. Quais serão os cidadãos e consumidores insanos que, diante dos aconselhamentos do Presidente da República em suas falas na TV, irão correr para a loja, imobiliária ou concessionária mais próximas para saciar seus sonhos de consumo neste Natal que já bate à porta? A questão não é de precaução, mas de medo mesmo, ou, no mínimo, de bom senso. Qual o contingente de assalariados neste País que, diante de tal cenário econômico nacional e internacional, tem qualquer garantia de que terá emprego - e, portanto, salário, quando janeiro ou fevereiro chegarem? E aqueles que têm dinheiro para comprar veículo, casa ou eletrodomésticos de alta tecnologia à vista neste País conta-se praticamente nos dedos. Só inconseqüência ou otimismo abilolado para levar um brasileiro, hoje, a fazer dívidas de longo prazo.Outro aspecto que merece quase uma gargalhada são os empresários entrevistados nesses programas sisudos de economia. Arvoram-se a esquecer de seus costados financeiros esfacelando-se cada dia mais nas bolsas de valores e descem o malho no governo federal, criticando-o por não estar fazendo o dever de casa como eles, empresários, que estão cortando custos, blá, blá, enquanto o setor público não estaria cortando nada.
E A ARGENTINA? - Reclamam do quê? Coloque-se no lugar do cidadão comum: o governo usa milhões dos cofres públicos para socorrer o setor privado, visando evitar que empresas até ontem sólidas virem pó. Do dinheiro público que migra todos os dias para socorrer o tal mercado, ninguém se queixa. Empresários falam como se a maior gravidade orçamentária brasileira fosse os não-cortes no setor público. Assim como se dizia lá no passado que o problema brasileiro era a saúva, hoje é a corrupção, alastrada e incontrolável. E o que é a corrupção senão a transferência criminosa e volumosa de dinheiro público para bolsos privados? Continuando a questionar esses paradoxos discursivos dos atores do mercado, alguém poderia explicar por que a imprensa brasileira, televisiva e escrita, está tão quietinha e omissa diante da surrupiada do dinheiro da previdência privada que o governo argentino de Cristina Kirchner promoveu? Ah se fosse Hugo Chávez (Peru), Evo Morales (Bolívia) ou Rafael Correa (Equador). Miriam Leitão e Arnaldo Jabor estariam roucos de tanto bradar.
Malu Fontes Jornalista, doutora em comunicação e cultura e professora da Facom-Ufba.Publicado no jornal A Tarde, caderno Revista da TV, em 23/11/08.
http://www.atarde.com.br/jornalatarde/revistadatv/noticia.jsf;jsessionid=4775A9B55B551BA18BBE91C6332E0B1F.jbossdube1?id=1013525
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Só peço isso... - Eduardo Mesquita
…só quero que digam por aí que eu não acreditava em nada. Nem ideais, nem sonhos, nem planos de dominação mundial. Nada. Contem que até escrever a palavra “crença” me era negado, por defeito genético. Façam ser verdade que nunca quis ter fé ou confiança em nada e nem em ninguém. Que passei os 90 minutos que me concederam sem entender o que estava acontecendo, e sem me esforçar por um segundo que fosse para tentar entender. Simplesmente entediado e sendo levado por tudo que nos leva.Divulguem que eu não tinha partido político, time de futebol, prato preferido, cor da sorte, signo, RG, nada. Nenhum sinal que acuse a minha participação nessa ópera bufa, nessa comédia de erros mal ensaiada e sem platéia. Contem em cada batizado que eu não apresentava sinal de nascença, cicatriz de operação, marca de vacina, tatuagem, buraco de piercing ou de tiro, nada.
Espalhem para todos que quiserem ouvir que nunca tive prazer com o contato humano. Afirmem com veemência que a existência humana sempre foi para mim meramente tolerável. Quando muito uma resignação medíocre e cotidiana a qual me acostumei. Contem que fingia cada sorriso, cada olhar de interesse, porque nunca quis sorrir para ninguém, nem nunca tive interesse por nenhum assunto que saísse de boca humana. Repitam à exaustão que sempre pensei ser o bicho gente uma experiência mal sucedida, um erro de laboratório, uma gloriosa cagada divina.
Lembrem a todos que nunca fiz nada, não consegui nada, não alcancei pôrra nenhuma. Mas deixem claro que não foi sob o signo da derrota que atravessei a existência, mas sim sob o sinal inegável da nulidade, do cinza, do apático, do esquecível. Porque a derrota ainda inspira piedade, comiseração, dó, e nem assim quero ser guardado. Nem por pena.
Apaguem quaisquer lembranças de fato ocorrido, momento vivido, beijo dado, porrada sofrida, qualquer coisa que se assemelhe a uma expressão de emoção humana. Deletem da memória universal qualquer coisa que possa ser distinguível, extraordinário, pois que a ordinariedade seja a última poesia.
Não deixem nenhuma foto inteira, nenhuma fita de vídeo, nenhum registro ou evidência. Permitam que eu me torne uma vaga lembrança em algum canto pouco explorado e vagamente usado da memória de um velho que todos chamam de louco, mentiroso e que inventa histórias que ninguém acredita. Deixem que me desvaneça.
Peço que tenham a educação, a decência, a generosidade, o respeito de fazer somente isso no segundo seguinte à minha morte. Nenhuma elegia, nenhuma homenagem, nenhuma placa de bronze nem flores plásticas. Nada de coroas com letras soltas, com mensagens ilegíveis, com flores mal combinadas, de gente que nunca deu um telefonema para dizer se estava vivo – não que isso realmente importasse. Tenham a gentileza de evitar discursos ou aplausos, que seja um momento discreto, apagado, nulo… de preferência com chuva fina, cheiro de terra molhada e dois coveiros. Mais ninguém.
Peço isso porque estou cansado de responsabilidades. Estou enfarado da facilidade humana de me condenar a atitudes, ações, comportamentos, gestos, reações. Me desespera como é fácil, para cada um desses que atravessam a rua na faixa de pedestres, ditar normas e regras – desde que não seja dele a obrigação de seguir e cumprir as malditas normas.
Diz o ditado que a responsabilidade, o dever, isso é, certamente, a única coisa que nunca nos livramos, pois até mesmo no leito de morte, prestes a dar o último passo, ainda dizem ao moribundo que ele deve lutar pela vida… deve!!! E depois de perdida a luta obrigatória, as lembranças. A necessidade podre de que se guardem boas coisas, que se enevoem as brigas, as desavenças, as canalhices, a putaria que possa ter sido a vida daquela criatura que teve o bom senso e a elegância de desaparecer. O finado passa então, a ter o dever de ser bom, correto, probo, honesto e cheiroso.
E pro resto da vida do resto de vivos, permanecer puro e imaculado. Sem nódoas, sem manchas amarelas, sem cantos quebrados. Morto e condenado ao esforço perpétuo de se manter virgem.
Peço aos inimigos, me deixem ser um morto. Só isso… morto! Não me amarrem comentários ao pescoço para que eu não precise seguir a eternidade me comportando. Deixem-me ser o morto torto no caixão. Aquele que não passou pela porta e precisaram colocá-lo de pé. O nariz ainda sangra, as mãos rígidas, e ele de pé, cambaleante, amparado pela parentada, passando pela porta onde seu caixão não fez curva. Me deixem ser o morto que se gargalha de prazer pela ausência. Me deixem ser um morto realizado, completo, saciado. Que tudo tenha sido feito, realizado, alcançado, e que por isso mesmo, tudo possa ser esquecido. Esquecido, portanto livre.
Não me condenem a ser um fantasma opressor que não deixa os outros seguirem em frente. O fantasma amaldiçoado que pesa nos ombros, que dá um gosto ruim nas bocas, que assombra sem aparecer à noite. Que limita…
Só quero, então, que vocês digam que eu fui um calhorda, como eu realmente sou. Não a suprema expressão, mas a mais sincera tentativa fracassada de um rematado canalha. Que eu fui um covarde, como eu realmente sou. Que fui medíocre, invejoso, fedorento, preguiçoso, careca, feio, desarrumado e bêbado. Contem nos jardins de infância que eu comia de boca aberta e arrotava até com copo de água. Não permitam que criança nenhuma no mundo queira ser como eu “quando crescer”. Publiquem em letras coloridas por todos os jornais e muros do mundo que eu fui a pior versão de um show que nunca devia ter entrado em cartaz – a humanidade. Deixem claro que isso eu acreditava: que a humanidade não devia ter acontecido, que o mundo deveria ter sido entregue aos platelmintos, às formigas cabeçudas ou mesmo às moscas de banana, qualquer coisa, menos esse troço errado que é gente. Esse tipinho idiotizado que não consegue tomar sua sopa sem jogar sal no prato ao lado. Que não consegue olhar somente para o seu umbigo sujo e inflamado. Esse bichinho que não sabe se virar sozinho, que não consegue falar o que pensa, que não consegue ser honesto com o que sente, que não faz sem esperar retorno, que não é capaz de ser o que vive cuspindo que é, nos discursos e nas salas de espera – gente. Não consegue ser gente.
Ser humano. Essa comprovação definitiva e verdadeira de que Deus não tinha a menor noção do que estava fazendo, e que Einstein estava errado; ele joga dados com o universo SIM!! E algumas vezes…. snake eyes!
Quando eu estiver morto, joguem terra por cima e vão pra festa. Qualquer festa. Se insistirem em fazer algo meramente próximo de uma reverência (porque homenagem não merecemos e não permitirei), bebam um último chopp em meu nome e me deixem em paz.
Perdoem-me somente a arrogância, e me deixem em paz. Eu tenho certeza que vou deixar vocês em paz.
Só isso que eu peço.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei - eduardoinimigo@gmail.com - http://www.ogritodoinimigo.com/
Vagando pela ciber ocean, encontrei esse texto que fala por mim a alguns que trocou a independência, a honestidade, a dignidade, a amizade, o profissionalismo, a inteligência, a competência, além do amor próprio e pelo semelhante, por algumas moedas e pelo lugar a mesa no banquete de imundices que alimenta os vis. E que em galhofarias pelos becos escuros, por onde passeiam os ratos, os pobres de espírito e de atitude, no canto escuro por onde só trafega aqueles que pactuados com o lado negro da força encontram abrigo para que ao cair das suas mascaras o mundo não veja quão horripilante é sua verdadeira face.
João Ferreira Jr
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
CULPA SEM CRIME - Malu Fonte
Ao mesmo tempo em que avançam as estratégias legais, jurídicas, punitivas contra os agentes da violência contra a infância, explodem no noticiário e em toda sorte de programas de televisão as narrativas dando conta de uma quantidade cada vez maior de crimes cometidos contra crianças. Cada vez mais bárbaros, como é o caso da menina encontrada aos pedaços dentro de uma mala abandonada em uma rodoviária no Paraná. Cada vez mais incompreensíveis, como o caso Isabella Nardoni supostamente atirada do alto de um edifício pela família. Cada vez mais chocantes, como no caso do garotinho em Inhambupe (BA), vítima de abuso sexual e estocado com cerca de 50 golpes de faca, uma quantidade que parece sequer cabível em seu corpo pequeno de apenas 8 anos. Cada vez mais perversos, como as torturas praticadas anos a fio por uma empresária de Goiânia contra a menina Lucélia Silva, cujas unhas, dentes, língua e pele foram mutilados com alicates, queimaduras, martelos.
VIA-CRúCIS - Como sempre ocorre nesses casos, o que mais choca é o cruzamento entre a condição indefesa, inocente e vulnerável inerente à criança e a barbárie contida no comportamento dos algozes adultos. Na última semana, em Salvador, no entanto, uma tragédia envolvendo a morte de crianças e fartamente veiculada nas emissoras de TV chamava a atenção justamente pela impossibilidade de julgamento e condenação dos aparentes culpados, os pais. O que desconcertava o telespectador mais analítico, nesse caso, era justamente o potencial de socialização dos papéis dos culpados no episódio. A quem atribuir culpa quando o contexto social e econômico paira sobre uma cena de dor e morte? Até a metade da semana, duas crianças haviam morrido e um bebê de 4 meses apresentava quadro grave após a casa em que moravam ter sido incendiada em função de uma vela acesa usada pelo pai. A razão do uso da vela deveria ser levada em conta pelos telespectadores e por pais ciosos que vão logo recorrendo a adjetivos condenatórios para nominar a (ir)responsabilidade e a culpa de um homem que perdeu os filhos, a casa, todos os pertences e todas as possibilidades de viver em paz pelo resto da vida. Juristas, delegados, advogados aqui e acolá foram entrevistados para falar da ′apuração′ das responsabilidades dessa família na morte dos filhos. Haverá inquérito, investigação, interrogatório e toda a via-crúcis jurídica e policial para que finalmente se chegue a um consenso quanto ao tipo de responsabilidade, de culpa ou acusação que devem ser aplicadas aos pais.
VELA E CUBÍCULO - Numa perspectiva mais abrangente, tem-se a impressão de que uma tragédia dessa natureza, ocorrida numa casa pobre no bairro de Plataforma (subúrbio ferroviário de Salvador), nada mais é senão a miséria marcando e demarcando seus territórios para o assombro e a incompreensão dos mais privilegiados. Parece óbvio e simples perguntar como podem pessoas adultas, pai e mãe, serem ignorantes ou irresponsáveis o suficiente a ponto de acender uma vela num cubículo, quando qualquer sujeito de bom senso sabe dos riscos que uma ação dessas representa. É nesse tipo de raciocínio simplista que chega uma sociedade que vira as costas para seus refugiados sócio-econômicos e em nenhum instante enxerga o elementar: trata-se de um casal pobre ao extremo, ambos desempregados, com renda zero e abastecimento de água e luz cortado por falta de dinheiro para o pagamento. Nesse contexto, a vela jamais seria considerada por quem a ela recorre como um objeto de risco ou ameaça, mas como praticamente um luxo, resquício último da normalidade, ou seja, da possibilidade de iluminar uma casa escurecida pelo desemprego, pela miséria, pela falta de oportunidade crônica, pela falta de capital social e simbólico de milhares de famílias que, como essa, representam o que os sociólogos hoje chamam de refugos do capitalismo. Todas sem ponto de chegada, condenadas a atravessar a vida remando sob a miséria, algo muito diverso da pobreza, pois essa ainda carrega em si alguma dignidade.
PROIBIR DE PARIR - Do que a sociedade e suas instituições podem acusar essa família da Plataforma? Ela já estava condenada muito antes dessas crianças morrerem de queimaduras. A morte apenas torna mais fortes as cores de sua tragédia pessoal crônica. Os defensores de primeira linha do planejamento familiar, que em última análise significa não outra coisa senão proibir definitivamente os pobresde se reproduzirem, certamente os condenarão pelo ato de um dia terem cometido a audácia de fazer sexo sem proteção, quando ainda não era a hora de ter filhos. Alguém tem uma resposta satisfatória para quem é muito pobre e que, mesmo assim, quer ter filhos? Não vale dizer que tem que esperar, se planejar, para tê-los na hora certa. Quem disse que essa tal hora certa chegará, se todas as possibilidades estão sempre fechadas para tais pessoas? Sem políticas públicas e justiça social, o rompimento do ciclo de miséria e pobreza é tão provável quanto um milagre. Na maioria dos casos, planejamento familiar não é outra coisa senão o desejo bem descrito e bem elaborado pelos mais privilegiados de proibir de parir aqueles que não têm nem terão dinheiro.
Malu Fontes Jornalista, doutora em comunicação e cultura e professora da Facom-Ufba.
Publicado no jornal A Tarde, caderno Revista da TV, em 16/11/08.
Fonte: http://www.atarde.com.br/jornalatarde/revistadatv/noticia.jsf;jsessionid=E1A1CD8907CEA0FB19E3004D7A6BF1CB.jbosstosh1?id=1008088
VIA-CRúCIS - Como sempre ocorre nesses casos, o que mais choca é o cruzamento entre a condição indefesa, inocente e vulnerável inerente à criança e a barbárie contida no comportamento dos algozes adultos. Na última semana, em Salvador, no entanto, uma tragédia envolvendo a morte de crianças e fartamente veiculada nas emissoras de TV chamava a atenção justamente pela impossibilidade de julgamento e condenação dos aparentes culpados, os pais. O que desconcertava o telespectador mais analítico, nesse caso, era justamente o potencial de socialização dos papéis dos culpados no episódio. A quem atribuir culpa quando o contexto social e econômico paira sobre uma cena de dor e morte? Até a metade da semana, duas crianças haviam morrido e um bebê de 4 meses apresentava quadro grave após a casa em que moravam ter sido incendiada em função de uma vela acesa usada pelo pai. A razão do uso da vela deveria ser levada em conta pelos telespectadores e por pais ciosos que vão logo recorrendo a adjetivos condenatórios para nominar a (ir)responsabilidade e a culpa de um homem que perdeu os filhos, a casa, todos os pertences e todas as possibilidades de viver em paz pelo resto da vida. Juristas, delegados, advogados aqui e acolá foram entrevistados para falar da ′apuração′ das responsabilidades dessa família na morte dos filhos. Haverá inquérito, investigação, interrogatório e toda a via-crúcis jurídica e policial para que finalmente se chegue a um consenso quanto ao tipo de responsabilidade, de culpa ou acusação que devem ser aplicadas aos pais.
VELA E CUBÍCULO - Numa perspectiva mais abrangente, tem-se a impressão de que uma tragédia dessa natureza, ocorrida numa casa pobre no bairro de Plataforma (subúrbio ferroviário de Salvador), nada mais é senão a miséria marcando e demarcando seus territórios para o assombro e a incompreensão dos mais privilegiados. Parece óbvio e simples perguntar como podem pessoas adultas, pai e mãe, serem ignorantes ou irresponsáveis o suficiente a ponto de acender uma vela num cubículo, quando qualquer sujeito de bom senso sabe dos riscos que uma ação dessas representa. É nesse tipo de raciocínio simplista que chega uma sociedade que vira as costas para seus refugiados sócio-econômicos e em nenhum instante enxerga o elementar: trata-se de um casal pobre ao extremo, ambos desempregados, com renda zero e abastecimento de água e luz cortado por falta de dinheiro para o pagamento. Nesse contexto, a vela jamais seria considerada por quem a ela recorre como um objeto de risco ou ameaça, mas como praticamente um luxo, resquício último da normalidade, ou seja, da possibilidade de iluminar uma casa escurecida pelo desemprego, pela miséria, pela falta de oportunidade crônica, pela falta de capital social e simbólico de milhares de famílias que, como essa, representam o que os sociólogos hoje chamam de refugos do capitalismo. Todas sem ponto de chegada, condenadas a atravessar a vida remando sob a miséria, algo muito diverso da pobreza, pois essa ainda carrega em si alguma dignidade.
PROIBIR DE PARIR - Do que a sociedade e suas instituições podem acusar essa família da Plataforma? Ela já estava condenada muito antes dessas crianças morrerem de queimaduras. A morte apenas torna mais fortes as cores de sua tragédia pessoal crônica. Os defensores de primeira linha do planejamento familiar, que em última análise significa não outra coisa senão proibir definitivamente os pobresde se reproduzirem, certamente os condenarão pelo ato de um dia terem cometido a audácia de fazer sexo sem proteção, quando ainda não era a hora de ter filhos. Alguém tem uma resposta satisfatória para quem é muito pobre e que, mesmo assim, quer ter filhos? Não vale dizer que tem que esperar, se planejar, para tê-los na hora certa. Quem disse que essa tal hora certa chegará, se todas as possibilidades estão sempre fechadas para tais pessoas? Sem políticas públicas e justiça social, o rompimento do ciclo de miséria e pobreza é tão provável quanto um milagre. Na maioria dos casos, planejamento familiar não é outra coisa senão o desejo bem descrito e bem elaborado pelos mais privilegiados de proibir de parir aqueles que não têm nem terão dinheiro.
Malu Fontes Jornalista, doutora em comunicação e cultura e professora da Facom-Ufba.
Publicado no jornal A Tarde, caderno Revista da TV, em 16/11/08.
Fonte: http://www.atarde.com.br/jornalatarde/revistadatv/noticia.jsf;jsessionid=E1A1CD8907CEA0FB19E3004D7A6BF1CB.jbosstosh1?id=1008088
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